Os meus dedos ficaram congelados no corpo de uma mulher que eu encontrara numa rua, tragando um cigarro amarelo, soprando a fumaça para cima, com o seu poder de provocar o desejo masculino, através da boca venal. Parecia uma defunta viva, enterrada na satisfação do domínio sexual, caracterizado à imagem fútil a que se pretendia limpa. Seria limpa, talvez, se fosse aquela a sua realidade, o seu tipo verdadeiro, se ela tivesse gosto pelo que fazia. Mas deixava aparecer em meio ao mistério do seu rosto um olhar triste que a "vida" sequer tem pena. Era impressionante a forma como observava de uma esquina a outra, enquanto que naquela noite silenciosa não passava quase ninguém por ali. Quando eu dobrei uma rua e me deparei com a estátua dessa mulher, que me chamava sem me querer, eu me via na doida situação ao qual a gente se atira por fraqueza, como um prostituto, sem noção dos princípios. Mas que princípios equivalem ao gosto de uma noite fabricada de prazer? No momento presente não se pensa nessas coisas, apenas se vai ao encontro do desejo. Um prazer! Eu queria aquele corpo, e não me importava se ele tinha alma, ou se vegetava no sereno. Fui me aproximando, e olhava no fundo de seus olhos, esperando que ela me chamasse para si. Ela o fez, quando eu parei e perguntei por que estava parada numa rua escura sozinha. O que é um perigo, acrescentei. Ela sorriu. Depois, me pediu para que eu lhe pagasse uma bebida. Interessava-se, ao que parece, em saber se eu tinha dinheiro (tinha um sorriso que não era de alegria). Mas fomos ao bar que ficava a duas quadras dalí. Ela já me tocava, sem sequer me conhecer. Parece que o seu cigarro tinha alguma composição que abrangia sua mente á fantasia. E eu estava quase a abraçá-la no intuito de tascar-lhe um beijo. Era tanta a sedução, que eu não resisti. Puxei sua língua para minha boca, que continha um gosto amargo. É que fazia algum tempo que eu não sentia o calor de uma mulher. Mas esse era um calor-frio. Nem sei como explicar... Depois de bebermos bastante na venda, saímos de lá, titubeantes, noite adentro, até encontrarmos um lugar sossegado, onde nos entregamos – eu pelo prazer, e ela por algo que eu não sabia, ao certo, o que era. Quando acabamos a transa, eu ia saindo, abotoando a calça. Daí, ela me chamou: - são 50 reais.