sábado, 24 de agosto de 2013

A MULHER DA VITRINE



Eu quero comprar uma mulher de corpo perfeito
- para uso doméstico, sabe?

Quero vesti-la com a melhor seda.

Não quero que ela seja inteligente e nem sensível,
para não correr o risco de ficar apaixonado por ela.
Que seja burra mesmo!

Quero um carro para tirar uma onda na cidade com ela.

Quero fazer sexo com ela
sem me importar com o seu prazer,
apenas com o meu.

Quando eu me cansar,
jogo-a fora e compro outra,
diferente na superfície e igual no interior.

Achar essa mulher é fácil,
mas cadê o dinheiro para comprá-la?

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Verbo ser



Não sei se sou...
se aquele que é for aquele que é,
não sei quem sou.

Se sou amor,
Deus não é,
pois parecer não é ser o que é.
Se Deus é amor, eu não sou.

Eu perdi meu ser.
Eu perdi meu ser.
Eu perdi meu ser dentro de você.

Não sei quem sou.
Se fosse, não seria o amor.
A flor só é flor porque ela é flor.
Não precisa ser para ser o que é.
E eu não sei ser sem ser o que sou.

Eu perdi você.
Eu perdi você.
Eu perdi você dentro do meu ser.

Quem é o que sempre foi o que é.
Quem é o que é nunca foi o que foi.
Quem é o que foi, sempre foi.
E quem sempre foi não foi sempre o que é.

Eu perdi você.
Eu perdi você, meu ser.
Eu perdi você dentro do meu ser!

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Música na vida



Canto como quem arranca
das entranhas
um sentimento de existir
face ao mundo
embebido de amor.

Em cada canto,
ainda que não tenha sido eu o autor,
é como se a descrição exata
da minha vida
estivesse sendo traduzida
nas experiências
do compositor.

Percebo o quanto se comunica,
nesse contato musical,
e como fica sendo lembrada em nossa mente,
repetidas vezes, docemente,
a poesia e seu punhal.

E a melodia,
tão rica em proporcionar fantasias,
torna a composição, em cada nota,
uma obra magistral.

Querida



Deixei as roupas que não mais me cabem
para seguir nu pelos caminhos da vida,
buscando aquele amor arrebatador
que me consome a alma sofrida.

Deixei o medo que tanto me arde,
e sobre o qual o meu sonho se elevou,
agora vivo em grande paz,
na espectativa de reencontrar o amor.

Se deixo tudo o que já se sabe,
é porque espero o universo conspirador
fazer aquele reajuste ou qualquer milagre,
torcendo para que se apague toda essa dor.

Deixei o passado e busco fazer as pazes,
para ser, querida, teu beija-flor.

EXISTIR

Eu vivo pensando, pensando,
querendo entender
o que me faz sentir e o que me faz ser.

Sentir é diferente de ser.

Sentir é natural,
profundo e tentador.
Mas ser é complicado,
exige, da gente, forma.
E para chegar a determinada forma
é preciso sofrer.

A forma do ser se adquire com a modelagem dos sentimentos,
como a argila manuseada pelo artista,
até ficar bela.

Um ser lapidado sente sem sofrer.


POEMA

Não é matando que se permanece vivo,
pois o amor precisa ser amigo,
se um fala seriamente
e o outro não dá ouvidos,
o sentimento fica comprimido.

A dor de cabeça fica mais dormente,
o corpo quente esfria-se mesmo a perigo,
porque no fundo daquela ausência,
a carência vive a espreitar fora,
um outro amor em outro amigo.

O amigo é um amor em potencial,
é o que evapora a lágrima e separa o sal,
até sublimar doce orvalho
sobre a flor e sobre o corpo,
até novo ciclo de água sentimental.

Matando... permanece vivo o corpo,
mas a alma se desfaz em fluídos ardentes,
como se herdasse do amor o umbral.


A Novidade Nº III

Quero a novidade escondida
por trás da palavra na língua
ou por detrás de qualquer sinal desesperado
de quem for capaz
de anunciar nova vida.

Quero botar o dedo na ferida
até me recuperar da herança adquirida
em papéis que o sangue contamina
mesmo depois de desbotar
e ficar amarelado,
como as nuvens nordestinas.

Quero me lançar aos braços
do vento, que desbaratina
o calor que faz nessa cidade,
porque quando fica mais tarde
é a música me invade com irreverência,
ou melhor, com toda potência!
Como uma novidade!